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sábado, 20 de junho de 2009

Poeta Arriete Vilela


ARRIETE VILELA (AL)Gênero: Poesia/ContosA autora: Alagoana, de Marechal Deodoro. Mestra em Liberatura Brasileira. Publicou Para além do avesso da corda (1980), Farpa (1988), A rede do anjo (1992), Fantasia e avesso (1994), O ócio dos anjos ignorados (1995), Dos destroços, o resgate (1999) e Vadios afetos (1999).A obra: Dos destroços, o resgate, Ed. Autora, Maceió, 1999.O ócio dos anjos ignorados, Ed. Autor, Maceió, 1995



AUTOFAGIA
Meu poema,autofágico,
devora-se em conotações de afeto entre o pai -
que poderia ter sidomeu - e um filho.
Não o filho de uma linguagem orgânica,
mas um filho que habita metaforicamente
nos brilhos que não imprimia
os metonímicos filhos que me habitam.
Não o pai que surge de uma memória
capaz de recriar quaisquer outras memórias
da infância, mas um pai que sempre será a referência
violentados desejos sem significados
inscritos nas imagens perpetuamente lodosasna nascente.
Por isso meu poema,autofágico,
refugia-se na própria carne viva
e me sangra em opressivos vazios
que não me devolvem o paie não me fazem parir o filho.



RECUSA
Recuso-me a dizer

desse desejo que se permite apenas rumorejar.
Faço-me, como Pessoa,canção tecida de artifícios e de luar,
mas queres ser somente raiz e tronco,referência e sonho ido.
Não encostas a tua face neutra
à face em febre da minha paixão,
porque temes os atalhos que te afastam
dos tetos protetores.
Recuso-me, então, a acolher-te em minha
alma, porque ainda não aprendestea dilacerar-me.



NÃO IREI ALÉM...
Não irei além da palavra
que atormentará a tua noite
insone nem além do espelho
que não te revelará em que sulcos
da tua alma caminhei em silêncio,
numa leveza quase agressora,
para que teu amor opaco e viscoso pudesse
fingir-se de miragem.
Não irei além dos tules, dos tafetás,
dos morins nem das sedas
com que criaste o cenário
desta solidão em que ensaio o nosso
último gesto:
mãos vazias na direção dos ventos tempestuosos.
Não irei além do teu entendimento,
mesmo que te debruces sobre os meus escritos
com a voracidade cega e triste do fogo que destrói
enredos, malfadados ou não.
Não irei além dos teus afetos
soterrados em vãs promessas, em vãs esperanças,
em vão apelos,porque sou, hoje,
coração revestido de invencível distância.
Não irei além do cheiro de maresia
vindo do passado, com as bandeirolas,
nas manhãs de domingo,
agitando-se ao anúncio da bem-aventurança
sempre no próximo porto,
sempre na próxima hora,sempre no depois.
Não irei além do que sou,nem dos meus aprendizados
na águas do meu signo,
nem das minhas andanças ao redor do umbigo
da província.
Não irei além de mim nem de ti,
ambos gaivota e águia,ambos aves de arribação,
ambos ilha e barco à deriva,ambos deserto e oásis.
Não irei além do que, hoje, é flor e nuvem,
vinho branco em taças renovadas,
aceno leve à partida da jangada de vela branca.
Não irei além da mansidão com que outros corpos
me chegam, como sons de saxofone
através da noitesem cintilações -
sequer as do anjo -,
nem irei além dessas ternuras arando
corações que um dia se fizeram desejo
e alegria, paixão e epifania.
Não irei além dos traços na obliqüidade
da minha vida, nem das redes que lanço
em rios de seixosa margem,nem além dos cajueiros
em flor à beira da estrada poeirenta.
Não irei além da contemplação dos trapezistas.



ESFINGE(fragmento)
Por detrás das máscaras e dos belos leques,
tua alma, drapejada de falsas jóias,
vela segredos em que desaparecem o teu rosto
e os teus gestos, crispados apenas na intimidade.
Por detrás do pó de arroz,
tuas rugas dizem de destinos à sombrado teu peito,
cujas graças, aparentemente generosas,
são noites furiosas de longos suspiros,
enquanto os incautos te segueme os loucos te renegame
os poetas te desconhecem e os animais urbanos te festejam.
Por detrás dos longos cílios de rímel,
teus olhos obscurecem alheios
caminhos e lhes distorcem os cipós.


Um comentário:

  1. Preciosos poemas, mi dulce amiga..
    Me ha impresionado " noches furiosas de largos suspiros"

    Mis besines para ti

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