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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Mauricio de Macedo

MAURÍCIO DE MACEDO


Poeta, médico-auditor e professor universitário, nasceu em Maceió, Alagoas, em 1954.

Bibliografia: Cinzel da Língua (1996), Sínteses da sombra (1997), Aventuras da Negra Fulô (1998), Esfinge Caeté (1999), Onde a vida fere mais fundo (1999), A palavra feito brasa (2000), Canção dos Orixás (2001), A poesia no cordão seguido de Pastoril (2002), A ostra e a pérola (2003), Das Alagoas seguido de Guerreiro (2003), Tear da palavra (2004), Escorial de açúcar (2004), À beira do silêncio (2005), A água e a pedra (2005), Epifania (2006) e À sombra das palavras (2006).



DISPNÉIA
Maceió: Editora Catavento, 2008.
ISBN 978 85 7545 –166-3

GRANDES E PEQUENOS

Há os poemas grandes e belos,
polissêmicos,
configurando sinfonias do pensamento.
Há os pequenos poemas,
nervosos,
oligossêmicos,
chocando-se desesperados
contra as grades do prosaico.

Se cantam em liberdade os pássaros,
pousados nos galhos mais altos
ou tecendo guirlandas no ar,
também canta o passarinho
aprisionado na gaiola do alpendres.



DÁDIVA

Trazia palavras do mundo
quando voltava para casa
como trazia o gatinho abandonado
ou a mangueira brotando no caroço.

E as palavras que trazia
instalavam-se no repertório
do meu silêncio
feito o gatinho dentro de casa
ou a mangueira no quintal.
ao leitor

Sou o poema náufrago.
E peço ao leitor
a respiração boca a boca
que me faça sobreviver.

Sou o poema inacabado.
E peço-lhe
que arremate meus versos,
sendo meu co-autor.

Sou o poema cego.
E peço-lhe
que me empreste seus olhos
para que eu possa ver.

Sou o poema náufrago,
inacabado,
cego,
como todos os poemas
o são.


trincheiras

Não serás convidado a freqüentar os palácios.
Não terás acesso aos gabinetes do poder.
Não lembrarão que existes
na tua estranheza, na tua solidão,
no teu fracasso.
Não terás nenhuma importância
e nenhuma utilidade.
Mas as palavras que escreves
no silêncio da madrugada,
numa folha qualquer,
serão trincheiras inexpugnáveis.


por trás do poema

As palavras por trás do poema
não voltam o rosto para mim.
Magnetizados pelos olhos
de quem as decifrou,
aguardando o olhar
de quem vai decifrá-las,
as palavras já não olham
para trás.

OS VIRTUOSOS

“aqueles que se preocupam demais
com o destino do homem acabam mais
cedo ou mais tarde ficando cruéis.”
(Isaac B. Singer, tradução de
Rubens Siqueira)

Os virtuosos não sentem culpa.
Os virtuosos não têm dúvidas.
Os virtuosos não sentem medo.
Os virtuosos só têm virtudes.

Os virtuosos erguem guilhotina
em nome da virtude.

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