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quarta-feira, 3 de junho de 2009

Fernando Pessoa


Não tenho ambições nem desejos.
ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sózinho. ..
.Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora....
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem sabe o que é amar......
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura... ...
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mãoE olha devagar para elas.



Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.




Prefiro rosas, meu amor,
à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença
Se a aurora raia sempre,
Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.



Vem sentar-te comigo, Lídia,
à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlaçemos as mãos).
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe,
para o pé do Fado,

Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.




Fernando Pessoa


Um comentário:

  1. Olá doce Rachel,
    excelente postagem de Fernando Pessoa, por muitos aclamado como o maior poeta da língua portuguesa. Possui uma vastissima obra, também publicada com os seus heterónimos de Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, entre outros.
    Felizmente, tenho o previlégio de possuir e já ter lido, a obra completa deste autor e respectivos heterónimos. Parabens por tua escolha. Beijos, desde este país à beira mar encravado...

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