segunda-feira, 8 de junho de 2009

Amor Total



Soneto do amor total
vinicius de moraes

Amo-te tanto, meu amor...
não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.




Vinicius de Moraes

domingo, 7 de junho de 2009

Hipérbata


Resgato ao desvão do vento
que sopra rude lá fora
algumas letras soltas:
elevam-se buganvílias pétalas dum qualquer tempo que não sei…
de que me não sei…
púrpuras, amarelas, roxas, rosas, brancas …
ausente, melancólica, desfolho e releio um diário antigo de letras doiradas em capa negra
afago-lhe os contornos
limito-lhe o corpo
o volume de folhas amareladas empobrecidas
sumidas pouco mais que água
pagina daem hologramas de vazio em esforço
fico-me quase cega nas iluminuras incompletas, imperfeitas…
copista de um tempo, hipérbata,
deslizo em sensaborias d’excessos, desregramentos em versos e versos,
fio a fio,gota a gota,
seda pura em roca tosca ,
iluminados p’la inexistência intempestiva.
cognata
não sinto mais o vento
nem sequer calor fome ou frio…
não sinto nada
se ventava lá fora …
tudo está tão silencioso agora!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Fernando Pessoa


Não tenho ambições nem desejos.
ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sózinho. ..
.Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora....
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem sabe o que é amar......
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura... ...
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mãoE olha devagar para elas.



Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.




Prefiro rosas, meu amor,
à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença
Se a aurora raia sempre,
Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.



Vem sentar-te comigo, Lídia,
à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlaçemos as mãos).
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe,
para o pé do Fado,

Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.




Fernando Pessoa


Vinicios de Moraes


Vinicius de Moraes - Eu Sei Que Vou Te Amar


Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
A cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente eu sei que vou te amar
E cada verso meu será pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida
Eu Sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta Tua há de apagar
O que essa ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver a espera
De viver ao lado teu Por
Toda a minha vida.



Música consagrada mudialmente!




Minha bem-amada

Quero fazer de um juramento uma canção
Eu prometo, por toda a minha vida
Ser somente teu e amar-te como nunca
Ninguém jamais amou, ninguém
Minha bem-amada
Estrela pura, aparecida
Eu te amo e te proclamo
O meu amor, o meu amor
Maior que tudo quanto existe
Oh, meu amor



A brusca poesia da mulher amada



Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente...
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é como a fonte!
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?
Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados...
Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.



A brusca poesia da mulher amada (II)



A mulher amada carrega o cetro, o seu fastígio
É máximo. A mulher amada é aquela que aponta para a noite
E de cujo seio surge a aurora.
A mulher amada
É quem traça a curva do horizonte e dá linha ao movimento dos astros.
Não há solidão sem que sobrevenha a mulher amada
Em seu acúmen.
A mulher amada é o padrão índigo da cúpula
E o elemento verde antagônico.
A mulher amada
É o tempo passado no tempo presente no tempo futuro
No sem tempo.
A mulher amada é o navio submerso
É o tempo submerso, é a montanha imersa em líquen.
É o mar, é o mar, é o mar a mulher amada
E sua ausência.
Longe, no fundo plácido da noite
Outra coisa não é senão o seio da mulher amada
Que ilumina a cegueira dos homens.
Alta, tranqüila e trágica
É essa que eu chamo pelo nome de mulher amada.
Nascitura.
Nascitura da mulher amada
É a mulher amada.
A mulher amada é a mulher amada é a mulher amada
É a mulher amada.
Quem é que semeia o vento? – a mulher amada!
Quem colhe a tempestade? – a mulher amada!
Quem determina os meridianos? – a mulher amada!
Quem a misteriosa portadora de si mesma?
A mulher amada.
Talvegue, estrela, petardo
Nada a não ser a mulher amada necessariamente amada
Quando! E de outro não seja, pois é ela
A coluna e o gral, a fé e o símbolo, implícita
Na criação. Por isso, seja ela!
A ela o canto e a oferenda
O gozo e o privilégio, a taça erguida e o sangue do poeta
Correndo pelas ruas e iluminando as perplexidades.
Eia, a mulher amada!
Seja ela o princípio e o fim de todas as coisas.
Poder geral, completo, absoluto à mulher amada!



Vinicios de Moraes

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Poesia de Antonio Miranda


BARCO À DERIVA
Poema de Antonio Miranda

Antes que os edifícios invadissem as dunas,
que os peixes expostos em entrepostos,
que os portos congestionados,
ondas estancadas, maré sem retorno, nãos.
Pássaros sem pouso, nuvens estagnadas.
Ilhas (ainda) desabitadas, escaladas impossíveis.
Sonhar. Ares degradados, repouso, vácuo
e um olhar sem rumo, sem prumo,turvo.
Dever haver uma saída, janela, fosso,
muro abrupto, caminhos interrompidos.
Deve haver uma saída, escada, cada
falsos,mapas imprecisos, vestígios indecifráveis.
Antes que a orla virasse muralha e vidro,
horizonte tapado, visão retroversa, errática
onde os peixes, onde os pássaros, ondas, ais.
Deve haver alguma saída. Antes que os.

23.09.2008

ASAS DE BORBOLETAS



Aos pares como asas de borboletas similares debatendo-se e
confrontando-se atendo-se a uma simetria crítica inquieta
geometria instável repetida frenética insustentável:
corpos aos pares asas modulares articuladas.
Corpos justapostos mancomunados
atados dependentes breves
flamejantes. Acasalados
leves. Casais como
dobradiças
treliças
partes
par
es
.
duas
metades
no quadrado
imaginário: asas



MEU PRIMEIRO AMOR


“A vida que se espera em fim de tudo”
1.Um corpo ereto, excitado,
na revelação de sua plenitude,
pela primeira vez.
Na puberdade, um susto!
Corpo a corpo, cobrindo-se,
descobrindo-se, brindando-se,despindo-se:
temor, tremor.
Armas ensarilhadas,virilhas em chamas—
proclamas de amor,precipitadas;—
fereza da ira, ternura e beleza,ímpeto.
Acossado, assustado:
arde nas entranhas,estranhas emoções.
Cego desejo que se nega e renega,
sem remissão nem culpa, engano;
fingimento. Justo quanto belo,ser-sendo.
Que nome tinha aquele amor de momento?
Aquele encantamento furtivo!

2.

Como Rinaldo, no “Orlando Innamorato”
(sec. XVI) do conde Matteo Boiardo,
sempre fugi de quem me amava,
só amava quem fugia de mim.
O amor tem faces e disfarcescruéis.
Amava-se, mas nem era amor.
Fulgor, estertor.
Talvez, prazere dor, mas tão intenso!
Tão forte,definitivo em sua fatuidade.
Princípio-fim, perquirição:
sorte,“um golpe de dados não abolirá o azar”.Fatalidade.

3.

Por que as pessoas se emparelham?
Mas continuam sós.
Quanta renúncia!
Que as atrai, que as separa?
Espelho em que outros se vêem(mas estamos ocultos).
Meu primeiro amor,
rumino e revivo:
é a mente que inflama o corpo,
é o corpo que envilece a mente?
Mas, a certezade ser útil pelo prazer.


ENTRE PURO Y OBSCENO

Poema de Antonio Miranda




Después de tus sonetos leer y salivar
revolviendo en busca de lascivia y miel
los veinticinco poemas, de un sólo tropel
y, adrede, es que me pongo aquí a pensar .

Si puede haber pornografía en amar
aunque el amor sea perverso y cruel
aunque a sueldo en el más ruin burdel
o, más, en la inversión de cuerpos jadear,

No sería en el acto que se practica
ni podría estar en aquel que fornica
aún en la condición que más rebaja

aunque ni sea amor, sea mortaja
inmunda, perfidia, que sólo valga
el dictado: amor que fija es el de pija.



VIAJO TU CUERPO
(Canción)

Letra de Antonio Miranda
Música de Xulio Formoso


Viajo tu cuerpo como un sol
que dora los contornos
suaves de tu juventud.

El paisaje en paralelo
resbalante sol arena
oscilante al sol verano.

Velas arrugadas emergen ganando
tu cuerpo en la playa
tu cuerpo en la arena.

Las formas oblongas
las velas infladas
y ganando el mar
tu cuerpo en la arena
tu cuerpo en la playa.

Hay como que un giro
angular en estas formas
curvas cuerpo playa
inmersos, dorso, escamas
tu cuerpo en la arena
y el cuerpo
en el cuerpo.




LA FRUTA



Es la fruta madura
entumecida,
eyaculando
iridiscente,
diseminando.

Fruta cortada,
Herida,
exhalando provocaciones
irrecusables.

La fruta en el plato,
el cuerpo en la cama,
es el llanto que calma,
es la naturaleza natimuerta
que exhorta
y clama.

Fruta cojida,
tullida,
prostrada,
poseída,
aguardando la consumación.

Es la fruta en la mano.




VINE DE LEJOS

Poema de Antonio Miranda

Vine de lejos, por los caminos alcalinos,
bajo el sol más calcinante. Vine por los libros
de la infancia, por el castigo del miedo
y por las manos de los que me condujeron
a la rebelía de toda voluntad personal.

Vine por los empedrados, por los muros obscenos,
por las calzadas del sueño. Vine sin ofrecer
resistencia,
vine por las trillas de la memoria,
bufando, toda voluptuosidad, obstinadamente.

Saltando fosas, bajo los puentes que sustentan la
Noche por las calles de nombre inpronunciables.
Aprendí a enfrentar los peligros entregándome a ellos
integralmente.
Soy, es cierto, tan cautivo como un pájaro
que dejó la jaula: quedo preso a la impropriedad
de las palabras, a toda extemporaneidad anímica,
porque habla antes de mí lo que no tiene voz
racional.

Vine a los empujones. Por la comisura de los labios,
pronunciando lugares comunes; mirando de soslayo,
porque es de un coraje inaudito mirar de frente:
las cosas nada son de lo que muestran. O son, si las admitimos.

Las cosas no son nada de lo que juzgamos,
o son: dá lo mismo: ya no serán, imprevisibles
que somos.

Persigo la imagen que hice de mi
y siempre estoy en deuda conmigo mismo.


domingo, 31 de maio de 2009

Poeta Jorge de Lima


SONETOS GÊMEOS
Se me vires inúmero, através
deste poema,
entre as coisas e as criaturas,
como se eu próprio fosse o que ontrem é,
dissipado nas páginas impuras,
arrebatado pelo próprio poema,
possesso, surpreendido, fragmentado,
travestido de herói ou de réu,
em quase todos os versos degredado,
negarás, meu irmão, a alma que vive
perdida na ansiedade de si mesma
sonhando a paz, querendo a paz;
a paz até na álgida paz da insânia
Deus me busca para ser o seu convulsivo
a amado filho em torno de quem crês
morar a paz que
Ele destina viva a todo aquele que lhe faz perguntas.
Eis as respostas nessas vozes gêmeas,
deblaterando sobre o seu defunto,
sobre seu louco, sobre o seu recente
corpo hoje inda nascido e já julga
doe já descido, e já movido nesses
campos da morte, sob os passos,
pássaros,aos ventos indo,
sob as noites gastas
passos sobre as caliças, sob os gestos,
sob as bocas sem choro, em seus nadas.





Machado de Assis


"Quando ela fala,parece
Que a voz da brisa se cala;
Talvez um anjo emudece
Quando ela fala.



Meu coração dolorido
As suas magoas exala.
E volta ao gozo perdido
Quando ela fala.



Pudesse eu eternamente
Ao lado dela escutá-la
Ouvir sua voz inocente
Quando ela fala.

Minh´alma, já semi-morta
Conseguira ao céu alçá-la
Porque o céu se abre uma porta
Quando ela fala.


Mundo Interior



Ouso que a natureza é Uma lauda eterna
De pomba,de fulgor,de movimento e lida
Uma escala de luz, uma escala de vida
De sol a ínfima luzerna.

Ouço que a natureza, a natureza externa, tem o olhar que
namora, e um gesto que intimida,
Feiticeira que ceva uma hidra de Ler na
Entre às flores da bela Arminda.
E contudo, se fecho os olhos, e mergulho
Dentro em mim, vejo à luz de outro sol, outro abismo
Em que o mundo mais vasto, armado de outro orgulho
Rola a vida imortal e o eterno cataclismo
E, como outro, guarda em seu âmbito enorme
Um segredo que atrai, que desafia - e dorme."



Bailando no ar,gemia inquieto a vagalume
Quem me dera que fosse aquela loura estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela.
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:


Pudesse eu copiar a transparente lume
Que, da grega coluna à gótica janela
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela
claridade imortal, que toda a luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Porque não nasci eu um simples vagalume?"



Poeta Machado de Assis