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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Poetiza Ana Luiza Amaral



Na poesia de Ana Luísa Amaral há sempre qualquer coisa que se reduz, ou se omite: não apenas pela dominância da elipse, pela qual a linguagem atinge uma contenção quase explosiva, mas, sobretudo, porque os poemas se retraem, muitas vezes, num mundo menor, onde a redução de escala permite o alargamento do mundo. Usando um verso de "Perspectivas", diria que eles "são reduções de luz", concentração
expansiva (…).


De pé sobre o abismo

e não morri:



Canto gregoriano

muito limpo

não me chegou:

o fim

Catedral

sobre o risco,

sobre um azul tão grande

que afundar-me podia

Ao fundo do mais fundo

mergulhei

e não morri:

amei


FINGIMENTOS POÉTICOS



"finge tão completamente"



Faz-me falta a tristeza

para o verso:

falta feroz de amante,

ausência provocando dor maior.



Tristeza genuína, original,

a rebentar entranhas e navios

sem mar.

Tristeza redundando em mais

tristeza, desaguando em métrica

de cor.



Recorro-me a jornal, mas é

em vão. A livros russos (largos

e sombrios).

Em provocado rio de depressão,

nem zepellin: balão

a ervas rente.



Um arrastão sonhando-se

navio.



Só se for o que diz o que

deveras sente.

A sério: o Zepellin.

Mas coração:

combóio cuja corda

se partiu.


MINHA SENHORA DE QUÊ

dona de quê

se na paisagem onde se projectam

pequenas asas deslumbrantes folhas

nem eu me projectei



se os versos apressados

me nascem sempre urgentes:

trabalhos de permeio refeições

doendo a consciência inusitada



dona de mim nem sou

se sintaxes trocadas

o mais das vezes nem minha intenção

se sentidos diversos ocultados

nem do oculto nascem

(poética do Hades quem mdera!)



Dona de nada senhora nem

de mim: imitações de medo

os meus infernos



PRIMEIRA IMAGEM



Numa tarde de sol,

dispôs-se no bordado e a bordar.

É que a luz da varanda era tão forte

que os olhos se detinham,

implodindo.

“Um sonho”, desejara.

E alguém, sorrindo,

Ientamente afastou-se,

monte acima.